Definição clássica de Política

O conceito de Política tem um significado longo e que deve ser separado entre sua definição clássica e moderna. Segundo o Dicionário de Política de Noberto Bobbio, política tem sua origem na palavra “politikós” (no grego pólis), que significa tudo que se refere à cidade e consequentemente ao urbano e civil.

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No desenvolvimento da civilização grega, notamos que vários estudiosos destacam o surgimento da pólis como uma das mais importantes experiências desenvolvidas em toda a Antiguidade.

Na Grécia antiga, entre os séculos 8 e 6 a.C, surgiram as “pólis”, que eram, ao mesmo tempo, a cidade e o território agropastoril, que formavam uma unidade administrativa autônoma e independente: uma cidade-estado. Atenas e Esparta são as cidades-estados mais conhecidas da Antiguidade grega.

Apesar de o termo política ter se popularizado graças ao filósofo grego Aristóteles (384-322 A.C), durante séculos, foi sendo utilizado para atribuição de obras dedicadas ao estudo da esfera de atividades humanas que está contido no Estado. Na época moderna, ela perdeu seu significado original, substituindo pela expressão Ciência do Estado.

Dessa atividade, pólis é o sujeito quando referidas à esfera da política como atos de proibir ou determinar alguma coisa com efeitos vinculadores referentes a um determinado grupo social, o exercício de um território, o legislar através de normas válidas, a retirada e transferência de um recurso de uma determinada área para outra, a conquista, a conservação e a derrubada do poder estatal.

De forma geral, o termo Política, entendido como práxis humana está vinculado de alguma forma ao poder. O filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970) define o poder como “o conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados”. Um desses meios é o domínio do ser humano sobre a natureza. Outro é o domínio de alguns homens sobre outros homens. Dessa forma fica evidente que o poder político pertence à categoria do poder do homem sobre o outro homem e não sobre a natureza. Isso passa a ser definido entre governantes e governados, entre soberanos e súditos, entre Estado e cidadãos, entre autoridade e obediência, etc. Contudo existem outras formas de poder do homem sobre o homem e o poder político é apenas mais uma entre diversas.

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Em sua compreensão mais simples, a pólis corresponde às diversas Cidades-Estado que se formaram no território grego entre o final do Período Homérico e o desenvolvimento do Período Arcaico

No caso do poder na Antiguidade, ele é definido pelo poder paterno, poder despótico e poder político. O paterno é exercido pelo interesse dos filhos, o despótico pelo interesse do senhor, e o político pelo interesse de quem governa e é governado. Na realidade todas essas formas estão ligadas ao regime de governo e o poder político seria apenas mais uma variante, no caso o do bom governo. No caso muitos teóricos políticos não deixam de identificar governo paternalistas, despóticos ou então governos em que a relação entre governantes e súditos, ora se assemelhe a relação de pai e filhos, ora entre senhores e escravos, os quais nem por isso deixam de ser Governos que agiam pelo bem público e se fundavam através de um certo consenso.

No próximo post sobre o termo Política, veremos a questão sobre o significado da política para os modernos.

Elias Canetti: A interação entre a força e o poder

Elias Canetti nasceu em 1905 na cidade de Ruschuk, na Bulgária, de uma influente família de judeus. Em 1911, estabeleceu-se em Manchester, na Inglaterra, onde seu pai se associara a um próspero cunhado em uma casa comercial. Após a morte prematura do pai, em 1913, mudou-se com a mãe – mulher culta e autoritária – e os irmãos para Viena, de onde presenciou a Primeira Guerra. Continuando os estudos escolares em Zurique, na Suíça, e em Frankfurt, cursou faculdade de química em Viena, e depois se para mudou Londres, fugindo do nazismo.

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O surgimento do nazismo e a adesão das massas.

Massa e poder, ensaio polêmico publicado em 1960 – talvez sua grande obra-prima – reflete a respeito de um pensamento que nasceu após o autor presenciar o espetáculo de adesão crescente das massas populares às organizações nazistas, na Alemanha e na Áustria dos anos 30. Nessa obra, Canetti dedica um capítulo para analisar a relação entre força e poder.

Dessa forma, para Cannetti a força é algo mais imediato e coercitivo do que o poder. Uma presa é aquilo que é capturado por uma força. O poder em seus estágios mais profundos ocorre antes da força. O poder é mais universal, prolongado e amplo. Ele é cerimonioso e possui até certo grau de paciência. “Em um momento crítico o poder pode assumir a sua forma pura e ser convertido em força” (CANETTI p.281).

As características da força e poder pode ser notado de uma forma bem simples; através da analogia do gato e rato. É o jogo da caça e do caçador. Quando o rato é capturado fica entregue aos caprichos do seu algoz, o gato. Brincando com sua presa, o gato a deixa correr dando o sentimento ilusório de liberdade, mas logo o rato acaba novamente sendo capturado. O gato possui o poder para apanhá-lo novamente quando desejar. Contudo caso o caçador deixe a caça fugir prolongadamente, ela pode acabar conseguindo sua liberdade. Por isso cabe ao gato uma vigilância constante.

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O jogo do gato e rato representa a interação entre força e poder

Outro aspecto relevante é quanto aos animais surgirem como símbolos de status e poder. Representando ora os deuses, ora os ancestrais que possuem o poder. A Simbologia animal está profundamente gravada no inconsciente coletivo da humanidade. Gêngis Khan teve como representação o lobo. O Império romano era representado pelo símbolo da águia, assim como os Estados Unidos, atualmente. Muitas atribuições feitas às pessoas utilizam os animais como referência: Ele deve possuir a astúcia de uma raposa e ser forte como um leão como afirmava Maquiavel em sua obra o Príncipe. Contudo, alguns dos animais mais invejados são os felinos devido a sua grande velocidade.

Desde tempos imemoriais, a velocidade física acaba sendo uma característica do poder. A velocidade do poder deve ser intensificada ao máximo para surgir com maior eficácia. Ela pode vir acompanhada do efeito surpresa, algo que pode ser devastador em uma guerra. Outro efeito é o da perseguição, aprendido principalmente através dos animais de rapina. Desnecessário abordar os seus efeitos com o auxílio da tecnologia.

Segundo Canetti, a esfera da captura pertence também a outra espécie bastante diferente da velocidade – o desmascaramento. Muitas vezes, diante de um ser inofensivo ao arrancar sua máscara, encontrara um potencial inimigo. Para conseguir uma maior eficácia, o desmascaramento deve ser feito subitamente. A dissimulação inimiga passa a ser combatida da mesma forma. Para aqueles que possuem o poder, pouco comoverá caso apanhe por equívoco em um inocente.

Quanto à defesa, contra aquele que detém o poder, uma tática é se fazer de surdo ou desentendido para evitar os efeitos coercitivos da força. Aquele que é indefeso se recolhe em seu próprio interior, em silêncio. “Tal armadura interior para protegê-lo da pergunta é o segredo” (CANNETI p.284). O segredo é uma forma eficaz contra qualquer tipo de pergunta. O calar é uma forma extrema de defesa. Ademais, aquele que cala dá a impressão de ser mais perigoso do que realmente é. A resposta aprisiona aquele que falou sobre algo. Ele não pode mais facilmente abandoná-la. Ela obriga o posicionamento. Um grupo isolado e diminuto é capaz de guardar um segredo mais facilmente. Caso ele seja revelado o grupo aplicara algum tipo de sanção sobre os responsáveis. Dependendo do teor do segredo, o mesmo pode se tornar algo muito perigoso para os seus portadores ou ao contrário, aumentar ainda mais o poder para aqueles que o possuem.

Atingindo outras esferas, como no caso da religião, o poder também se encontra presente. Em muitas religiões a predestinação está presente nos aspectos da vida do devoto. Assim nas palavras de Canetti, o rato abatido pelo gato, é como se o fiel vivesse na boca de um Deus que a qualquer momento pode triturá-lo. Deve-se seguir vivendo e sempre fazer aquilo que o dogma impõe, ou seja, aquilo que é tido como a verdade.

E por último, a misericórdia é algo que todos possuem em certo grau ou nível. Muitos quando chegam ao poder são obrigados a perdoar, mais fazem apenas na aparência. Entre eles existem, o paranóico, que é aquele que dificilmente oferece o perdão. Ele pondera em excesso, demorando pra tomar uma decisão ou fica procurando motivos fictícios com o pretexto de não perdoar. Mais Canetti afirma que o detentor de poder não perdoa de fato. Todo o ato hostil permanece cuidadosamente registrado, ele o oculta e documenta. O seu ato generoso tem como objetivo a submissão de tudo aquilo que se opõe a ele.

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Livro de Elias Canetti: Massa e poder

Em resumo, Canetti passou as três décadas procurando decifrar os segredos profundos da humanidade em suas manifestações mais corriqueiras e terríveis ocasionadas pelas relações de poder – perseguição e captura; mandar e obedecer; matar e sobreviver; medo e voracidade; paranóia e poder. A sua obra Massa e poder, foi considerado um dos grandes momentos das letras no século XX. Em 1981, Canetti recebeu o prêmio Nobel de literatura.

A educação contra Auschwitz

Escrito por:  Juliana Carneiro

Auschwitz foi o nome de um grupo de campos de concentração localizados no sul da Polônia, símbolos do Holocausto perpetrado pelo nazismo. A partir de 1940 o governo alemão comandado por Adolf Hitler construiu vários campos de concentração e um campo de extermínio. O número total de mortes produzidas em Auschwitz-Birkenau ainda é controverso,estima-se que morreram mais de 1 milhão de pessoas.

No início de 1940 Auschwitz era apenas uma pequena cidade com aproximadamente treze mil habitantes na Alta Silésia alemã. Porém, no mês de maio desse mesmo ano iniciaram-se em suas cercanias as edificações de um "campo de trânsito" para receber dez mil prisioneiros poloneses.

Dessa forma, o holocausto foi um tema caro para a reflexão do filósofo alemão Theodor Adorno (Frankfurt am Main,11 de setembro de 1903 – Visp, 6 de agosto de 1969), principalmente no campo referente  a educação. Segundo Adorno, o que deve nortear questões sobre metas educacionais é que Auschwitz não se repita, pois está foi considerada a maior expressão de barbárie já vista. Seria de fundamental importância à educação investir contra isso.

O autor retoma as teses de Freud no que se refere ao conflito entre o individuo e civilização, onde esta fortalece o que é anti-civilizatorio. O preço para o desenvolvimento da civilização é a repressão dos instintos individuais e o autocontrole tem como consequência a neurose. A consciência do autocontrole seria, segundo o Adorno, o fortalecimento do ego, do individuo autônomo.

O fato de Auschwitz ter ocorrido foi, segundo o autor, tendência social imperativa. A partir do fato de que é muito limitada à possibilidade de modificar os pressupostos sociais e políticos, contrapô-los levaria, então, ao lado subjetivo do sujeito.

“É preciso buscar as raízes nos perseguidores e não nas vitimas, assassinadas sob os pretextos mais mesquinhos. Torna-se necessário a esse respeito o que denominei de inflexão em direção ao sujeito. È preciso conhecer os mecanismos que tornaram as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos e eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos” (ADORNO: 1997P. 121). Nesse sentido, para Adorno é preciso ir contra a ausência de uma consciência, o que leva a pensar a educação válida, sobretudo quando se propõe a uma auto-reflexão critica.

Levando em consideração os pressupostos da psicologia profunda que analisa que todo o caráter do sujeito se forma já na primeira infância, Adorno propõe que a repetição de Auschwitz deve ser evitada realizando um processo incisivo educacional já nesse estágio. Além disso, também a fim de evitar a repetição. Adorno fala a respeito de um esclarecimento geral que permitiria o surgimento de um novo clima cultural, intelectual e social. É nessa direção que as motivações que conduzem ao horror se tornam conscientes ao individuo.

Estima-se que morreram mais de 1 milhão de pessoas nos campos de concentração de Auschwitz.

Adorno nos diz que: “o único poder efetivo contra o principio de Auschwitz será a autonomia para usar a expressão kantiana, o poder para a reflexão, a autodeterminação a não participação (ADORNO: 1997 P.125).

Considera que o mais importante para enfrentar a repetição é se contrapor ao poder de todos os coletivos ao fortalecer a resistência frente a ele por meio do próprio esclarecimento do problema da coletivização. Segundo o autor, a pessoa que se enquadra de forma radical em coletivos, dissolve-se como seres autodeterminados. O que leva a tratar os outros como massa amorfa. Para definir isso, utiliza o termo “caráter manipulador”. “O caráter manipulador se distingue pela fúria organizativa, pela incapacidade total de levar a cabo experiências humanas diretas, por certo tipo de ausência de emoções, por um realismo exagerado.” (ADORNO: 1997 P.129)

Consequentemente, o que é de fundamental importância na tentativa de atuar contra a repetição do horror seria, segundo Adorno, produzir antes de tudo, certa clareza no que se refere ao “poder manipulador”, em seguida, impedir sua formação, pelas transformações das condições para se chegar a isso. O conhecimento dos mecanismos subjetivos e a conscientização em relação à realidade e seu conteúdo é uma necessidade que conduz a resistência.

Tipo de dominação carismática em Weber

O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) demonstra ao longo de suas obras, três formas de dominação: a tradicional, a dominação legal e a carismática.

Essa última tem sua origem em tempos obscuros, sendo provavelmente de cunho cristão e que tem como significado vinculado ao dom da graça. Atualmente, esse termo popularizou-se de uma forma que passou a ser amplamente utilizado por jornalistas e leigos.

O carisma é um tipo de dominação que assume a sua forma plena através de um grupo de indivíduos que possuem a crença e passam a ser influenciado por líder que possui um diferencial "sobre-humano" e "extra-cotidiano".

Weber adotou essa palavra a partir do teólogo, Rudolph Sohm que a utilizava para interpretar o desenvolvimento da antiga igreja cristã (BENDIX 1966, P.325). Em sua análise carisma tem tanto uma importância religiosa quanto secular ao longo da história. O carisma é capaz de assumir toda uma variedade de aspectos, correspondendo a uma influência militar, política, ética, religiosa, artística, contudo em todos os casos, sua consequência é afetar de forma impressionante as vidas dos que ficam sob o seu efeito.

Para Weber significa uma qualidade excepcional, sobre-humano, “sobrenatural”, seja real ou imaginaria, possuído por um individuo isolado que é capaz de exercer influência e liderança sobre um grupo de admiradores. Aquele que possui “é um enviado de um Deus”, um herói ou um chefe. Dessa forma o carisma está ligado à crença, ou seja, ao fazer-se acreditar através de milagres, êxitos ou promessas de prosperidades aos seus súditos.

Maximilian Carl Emil Weber (Erfurt, 21 de Abril de 1864 — Munique, 14 de Junho de 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia.

O carisma está presente no sempre novo, naquilo que foge a rotina, em um fator emotivo para uma fonte de devoção. Obede-se exclusivamente à pessoa do líder e não uma posição estatuíta (dominação legal) ou de sua dignidade tradicional (dominação tradicional). Por outro lado um indivíduo tido como popular ou simpático não necessariamente alguém que partilhamos determinada crença ou opinião e isso não torna o torna um líder carismático.

Ademais, para manter um carisma, o mesmo deve ser dinâmico e frequentemente exercido e provado. Quando o carisma se transforma em diferença, ele é rapidamente dissipado. Devido o seu caráter pessoal, o tipo de dominação carismática, pode encontrar problemas para sua transmissão quando um líder ou profeta morre.

Para Weber, o carisma é uma explosão que desafia a tradição e despreza a frieza da legalidade impessoal, assumindo o seu caráter revolucionário. Contudo outros autores como Shil, escrevem sobre uma propensão carismática que objetiva a manutenção do status quo. Além disso, a exposição de Weber tende a deixa-lo em uma condição mais mística, sendo que em estudos mais recentes relacionados à oratória e política demonstra que ele pode ser adquirido através de técnicas orquestradas e aprendidas principalmente por políticos.

A leitura dos clássicos

Numa vasta biblioteca, diante de centenas de obras, uma dúvida paira no ar: qual livro devo escolher? Entre tantas páginas, estardalhaços e novidades qual autores devem ser lidos?

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Em uma vasta biblioteca, qual livro devo escolher ?

A vida é curta e o tempo é precioso. Não devemos escolher os livros pela sua bela capa, título ou pelo assunto ser moda naquele momento. Devemos escolhê-lo pela sua originalidade e por terem algo realmente importante a ser dito. “Ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude(CALVINO, p.7). Uma obra como Dom Quixote de la mancha de Miguel de Cervantes, que influenciou de forma significativa o mundo ocidental, é um grande exemplo de um clássico da literatura universal.

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D. Quixote de la Mancha

No prefácio de Dom Quixote (editora 34), a professora de literatura espanhola pela USP, Maria Augusta da Costa Vieira considera os leitores tardios da obra de Cervantes, como verdadeiros privilegiados. Muitos estudantes nascidos na Espanha invejariam esse fato, devido o contato tão prematuro que eles possuem com as aventuras do cavaleiro errante. Caso o leitor tenha uma maior maturidade intelectual, um clássico provavelmente será lido de maneira mais aprofundada, porém essa nunca será uma leitura definitiva do mesmo.

Em diversas áreas do saber, os grandes mestres, em sua maioria, foram pessoas que passaram por enormes dificuldades; entre elas,  pobreza, doença, fome, poucos alunos e discípulos; sendo  que muitas vezes foram duramente criticados ou ignorados pelos seus pares, para em seguida serem aclamados pela posteridade. Enquanto isso, tantos outros ganhavam dinheiro e fama, caindo tempos depois no mais puro esquecimento.

Quando penso num clássico, metaforicamente, me vem à frase do filósofo Jürgen Habermas: “Uma flecha que atira no coração do presente“. Uma obra se torna atemporal não por nos dá respostas, mas porque ela se faz pertinente ao nosso tempo por fazer indagações que ainda nos dizem respeito. Ou nas palavras do escritor italiano, Ítalo de Calvino: “os clássicos servem para entender quem é e aonde chegamos.

Não há nada mais atual e revigorante do que uma boa leitura das obras imortalizadas. Em algum grau, ela deve fazer parte da formação intelectual de qualquer indivíduo, principalmente daqueles que pretendem se aprofundar cada vez mais no mundo das idéias.

O Gabinete do dr. Caligari

O sinistro Dr. Caligari hipnotiza um jovem e o induz a matar várias pessoas. Tudo se complica quando ele se recusa a assassinar uma bela jovem. O filme mostra a ótica de um louco através das distorções e deformações das ruas, casas e pessoas.

O ano é 1919, o cenário a Alemanha, e somente um ano havia se passado desde o fim da primeira grande guerra. As feridas do conflito ainda sangravam e o resultado foi cruel para aquele país. Esse foi o palco para um novo estilo de cinema (uma guerra, uma nação e uma expressão) surgido através da vanguardas da década seguinte, que teve como um dos precussores o diretor Robert Wiene.

Robert Wiene (Breslau, 27 de abril de 1873 – Paris, 16 de junho de 1938) foi um dos diretores mais importantes do cinema alemão. Sua mais memorável participação no cinema acontece através do terror de 1920 intitulado O Gabinete do Dr. Caligari e da adaptação de Crime e Castigo – Raskólnikov de Dostoiévski (1923).

O Ganinete do Dr. Caligari
O gabinete do Dr. Caligari é a pedra angular de uma corrente de cinema fantástico e bizarro que surgiu na Alemanha na década de 20

O Gabinete do Dr. Caligari é o início do estilo de cinema que ficou conhecido como Expressionismo Alemão. Os cenários se inspiram em quadros cubistas e o filme traz toda a influência dos movimentos estéticos que revolucionaram o começo do século XX, bem como todos os medos, delírios e assombros do homem que se modernizava. A partir de 1920 causou um impacto significativo, servindo de influência para todo um gênero de terror ao introduzir imagens, temas, expressões e personagens que seriam explorados por filmes como Drácula, Frankstein entre diversos outros…

O sonâmbulo Cesarê

Através de um enredo-pesadelo, o filme mostra personagens desligados da realidade cujo sentimento aparecia em um cenário de drama plástico repleto de simbologias e significados macabros. Mas Caligari também se relacionava com os filmes pré-expressionistas realizados no país antes da guerra (utilização principalmente do cinema autor) com o popular filme de detetives, o que indica uma preocupação comercial entre os seus realizadores.  Dr. Calígari se baseia completamente em recursos teatrais, com a câmera fixa no centro, mostrando o cenário e deixando os atores (especialmente Veidt) responsáveis por diversos movimentos de impacto.

No enredo, o misterioso Dr. Caligari (Werner Krauss) chega à cidadezinha de Holstenwall com um espetáculo que seu assistente, o sonâmbulo Cesarê (Conrad Veidt), adivinha o futuro das pessoas. Logo depois da chegada da dupla sinistra, uma série de crimes praticados na cidade faz com que as suspeitas se voltem para o sonâmbulo-zumbi, flagrado por seqüestrar uma moça Jane (Lig Dragover), namorada do jovem Francis (Friedrich Feher).

Os críticos costumavam dizer que muitos filmes realizados na década de 20 possuem elementos do caligarismo. Neste estilo,  policiais sentam em bancos ridiculamente altos, formas pontiagudas predominam em todo o cenário, ambientes externos são pintados, aspectos de atemporalidade e as interpretações são estilizados a ponto de histeria. Calígari é também uma história relacionada com a cultura alemã: trata de conflitos, perda de uma identidade pós-guerra, um forte paternalismo, mães ausentes, e objetos de desejos praticamente inalcançáveis.

Caligari influenciou diversos filmes de terror

Baseado nas experiências de Mayer com psiquiatras e no testemunho do assassinato de uma moça no parque Holstenwall, o roteiro vem com o objetivo de criticar a violência de qualquer autoridade social;  junto à proposta do expressionismo de demonstrar e traduzir esteticamente os conflitos emocionais.

 Uma polêmica entre os roteiristas e o diretor causou a eliminação de diversos itens do roteiro. Para os roteiristas, a estratégia de apresentar Francis como um indivíduo louco e incapaz, invertia o ponto central do roteiro que era o de questionar a obediência cega à autoridade.  Porém, inversamente a história em diversos momentos glorificava a autoridade.

O Gabinete de Dr. Calígari foi se consolidando no cenário cinematográfico, no qual muitos tentaram reduzir o filme (e sua moldura) a um efeito alegórico específico, mas indo muito além, trata-se de uma poderosa metáfora que gera toda uma ambivalência, não simplificada,  pelo tema da loucura.

Após a ascensão de Hitler na Alemanha, Robert Wiene deixou Berlim, primeiramente foi para Budapeste onde dirigiu One Night In Venice (1934), posteriormente para Londres e, finalmente para Paris onde tentou produzir junto de Jean Cocteau uma reprodução sonora de O Gabinete. Wiene morreu de câncer em Paris dez dias antes do fim da produção de um filme de espiões,Ultimatum.

Pais: Alemanha
Ano: 1919
Direção: Robert Wiene
Roteiro: Carl Mayer & Hans Jenowitz
Duração: 51 Minutos
Gênero: Mudo, P&B, Terror

Elenco:

Werner Krauss como Dr. Caligari
Conrad Veidt como Cesare
Friedrich Feher como Francis
Lil Dagover como Jane
Hans Heinrich von Twardowski como Alan
Rudolf Lettinger como Dr. Olson
Rudolf Klein-Rogge como “O Assassino”

A morte de Ivan Ilitch

Postado originalmente no blog Sagaz: 04 / abril / 2010. 

A morte de Ivan Ilitch do russo Lev Tolstoi é um livro pertubador e de uma narrativa magistral poucas vezes alcançada na literatura mundial. Esse pequeno novel (85 páginas) difere de um conto devido unicamente ao seu tamanho e, de um romance, pela trama focar apenas na personagem principal.

A obra retrata a vida do burocrata Ivan Ilitch e sua agonia diante da sua atroz doença terminal. Ilitch teme a morte mais que tudo, pois percebe que sua vida deveria ter sido mais proveitosa, sincera e menos fútil.

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A narrativa começa no velório. Em seguida, retrata o casamento com sua esposa (época em que ainda eram felizes junto aos seus dois filhos). À medida que Ivan Ilitch vai subindo de cargo, a burocracia, inconscientemente vai tornando sua vida insatisfatória e desprovida de qualquer significado especial.

Com o tempo Ilitch torna-se um juiz respeitado e recebe uma oferta para morar em outra cidade. Logo compra uma casa e começa a fazer sua decoração. Enquanto trabalhava nesta, Ivan Ilitch leva uma queda da escada, batendo a região do seu rim. Eis, então, o início de seu infortúnio.

Além da doença, tudo piora a partir do momento em que as brigas com sua esposa ficam mais constantes e conforme suas dores começam a se agravar. Ilitch usa seu emprego como válvula de escape.

Conforme suas dores tornam-se insuportáveis, a realidade crua é exposta a personagem. Ilitch percebe que sua vida quanto mais afastada de sua infância, mais vazia foi ficando. Família, emprego, amizades… tudo não passa de uma ilusão. Exceto, talvez, os momentos em que passava junto ao seu criado, que realmente se preocupava com Ilitch durante os momentos de sofrimento.

De certa forma, o livro é um soco no estômago. O ato de morrer é desprovido de qualquer significado ou explicação, o niilismo,  a nadificação, o vazio existencial.

Conforme a leitura se aprofunda, encaramos na morte da personagem o reflexo da nossa própria existência que se esvai gradativamente. A agonia de Ivan Ilicht é terrível, a sua falta de respostas,  sua angústia, sua vontade de viver, o seu medo e o sofrimento acabam encravados  em nossa alma.

Tolstoi

O livro é uma autobiografia do autor, o qual dizia que levava uma vida desregrada por viver constantemente envolvido com jogatinas, bebidas, prostitutas… Desregramento apenas contido pela sua busca espiritual e fé, porém constantemente abalada por crises existenciais ao longo de sua vida. O próprio Tolstói dizia: ” não passo um dia em minha vida sem pensar na morte”.

Em vista de tudo isso, A Morte de Ivan Ilitch está entre as obras consideradas universais, pois suas inquietações e angústias pertencem a vida de qualquer ser humano seja qual for sua época. Ajuda-nos, portanto, a refletir sobre a nossa frágil condição humana e sobre o momento final que encerra nossa existência.