A leitura dos clássicos

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Numa vasta biblioteca, diante de centenas de obras, uma dúvida paira no ar: qual livro devo escolher? Entre tantas páginas, estardalhaços e novidades qual autores devem ser lidos?

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Em uma vasta biblioteca, qual livro devo escolher ?

A vida é curta e o tempo é precioso. Não devemos escolher os livros pela sua bela capa, título ou pelo assunto ser moda naquele momento. Devemos escolhê-lo pela sua originalidade e por terem algo realmente importante a ser dito. “Ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude(CALVINO, p.7). Uma obra como Dom Quixote de la mancha de Miguel de Cervantes, que influenciou de forma significativa o mundo ocidental, é um grande exemplo de um clássico da literatura universal.

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D. Quixote de la Mancha

No prefácio de Dom Quixote (editora 34), a professora de literatura espanhola pela USP, Maria Augusta da Costa Vieira considera os leitores tardios da obra de Cervantes, como verdadeiros privilegiados. Muitos estudantes nascidos na Espanha invejariam esse fato, devido o contato tão prematuro que eles possuem com as aventuras do cavaleiro errante. Caso o leitor tenha uma maior maturidade intelectual, um clássico provavelmente será lido de maneira mais aprofundada, porém essa nunca será uma leitura definitiva do mesmo.

Em diversas áreas do saber, os grandes mestres, em sua maioria, foram pessoas que passaram por enormes dificuldades; entre elas,  pobreza, doença, fome, poucos alunos e discípulos; sendo  que muitas vezes foram duramente criticados ou ignorados pelos seus pares, para em seguida serem aclamados pela posteridade. Enquanto isso, tantos outros ganhavam dinheiro e fama, caindo tempos depois no mais puro esquecimento.

Quando penso num clássico, metaforicamente, me vem à frase do filósofo Jürgen Habermas: “Uma flecha que atira no coração do presente“. Uma obra se torna atemporal não por nos dá respostas, mas porque ela se faz pertinente ao nosso tempo por fazer indagações que ainda nos dizem respeito. Ou nas palavras do escritor italiano, Ítalo de Calvino: “os clássicos servem para entender quem é e aonde chegamos.

Não há nada mais atual e revigorante do que uma boa leitura das obras imortalizadas. Em algum grau, ela deve fazer parte da formação intelectual de qualquer indivíduo, principalmente daqueles que pretendem se aprofundar cada vez mais no mundo das idéias.

O Gabinete do dr. Caligari

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O sinistro Dr. Caligari hipnotiza um jovem e o induz a matar várias pessoas. Tudo se complica quando ele se recusa a assassinar uma bela jovem. O filme mostra a ótica de um louco através das distorções e deformações das ruas, casas e pessoas.

O ano é 1919, o cenário a Alemanha, e somente um ano havia se passado desde o fim da primeira grande guerra. As feridas do conflito ainda sangravam e o resultado foi cruel para aquele país. Esse foi o palco para um novo estilo de cinema (uma guerra, uma nação e uma expressão) surgido através da vanguardas da década seguinte, que teve como um dos precussores o diretor Robert Wiene.

Robert Wiene (Breslau, 27 de abril de 1873 – Paris, 16 de junho de 1938) foi um dos diretores mais importantes do cinema alemão. Sua mais memorável participação no cinema acontece através do terror de 1920 intitulado O Gabinete do Dr. Caligari e da adaptação de Crime e Castigo – Raskólnikov de Dostoiévski (1923).

O Ganinete do Dr. Caligari
O gabinete do Dr. Caligari é a pedra angular de uma corrente de cinema fantástico e bizarro que surgiu na Alemanha na década de 20

O Gabinete do Dr. Caligari é o início do estilo de cinema que ficou conhecido como Expressionismo Alemão. Os cenários se inspiram em quadros cubistas e o filme traz toda a influência dos movimentos estéticos que revolucionaram o começo do século XX, bem como todos os medos, delírios e assombros do homem que se modernizava. A partir de 1920 causou um impacto significativo, servindo de influência para todo um gênero de terror ao introduzir imagens, temas, expressões e personagens que seriam explorados por filmes como Drácula, Frankstein entre diversos outros…

O sonâmbulo Cesarê

Através de um enredo-pesadelo, o filme mostra personagens desligados da realidade cujo sentimento aparecia em um cenário de drama plástico repleto de simbologias e significados macabros. Mas Caligari também se relacionava com os filmes pré-expressionistas realizados no país antes da guerra (utilização principalmente do cinema autor) com o popular filme de detetives, o que indica uma preocupação comercial entre os seus realizadores.  Dr. Calígari se baseia completamente em recursos teatrais, com a câmera fixa no centro, mostrando o cenário e deixando os atores (especialmente Veidt) responsáveis por diversos movimentos de impacto.

No enredo, o misterioso Dr. Caligari (Werner Krauss) chega à cidadezinha de Holstenwall com um espetáculo que seu assistente, o sonâmbulo Cesarê (Conrad Veidt), adivinha o futuro das pessoas. Logo depois da chegada da dupla sinistra, uma série de crimes praticados na cidade faz com que as suspeitas se voltem para o sonâmbulo-zumbi, flagrado por seqüestrar uma moça Jane (Lig Dragover), namorada do jovem Francis (Friedrich Feher).

Os críticos costumavam dizer que muitos filmes realizados na década de 20 possuem elementos do caligarismo. Neste estilo,  policiais sentam em bancos ridiculamente altos, formas pontiagudas predominam em todo o cenário, ambientes externos são pintados, aspectos de atemporalidade e as interpretações são estilizados a ponto de histeria. Calígari é também uma história relacionada com a cultura alemã: trata de conflitos, perda de uma identidade pós-guerra, um forte paternalismo, mães ausentes, e objetos de desejos praticamente inalcançáveis.

Caligari influenciou diversos filmes de terror

Baseado nas experiências de Mayer com psiquiatras e no testemunho do assassinato de uma moça no parque Holstenwall, o roteiro vem com o objetivo de criticar a violência de qualquer autoridade social;  junto à proposta do expressionismo de demonstrar e traduzir esteticamente os conflitos emocionais.

 Uma polêmica entre os roteiristas e o diretor causou a eliminação de diversos itens do roteiro. Para os roteiristas, a estratégia de apresentar Francis como um indivíduo louco e incapaz, invertia o ponto central do roteiro que era o de questionar a obediência cega à autoridade.  Porém, inversamente a história em diversos momentos glorificava a autoridade.

O Gabinete de Dr. Calígari foi se consolidando no cenário cinematográfico, no qual muitos tentaram reduzir o filme (e sua moldura) a um efeito alegórico específico, mas indo muito além, trata-se de uma poderosa metáfora que gera toda uma ambivalência, não simplificada,  pelo tema da loucura.

Após a ascensão de Hitler na Alemanha, Robert Wiene deixou Berlim, primeiramente foi para Budapeste onde dirigiu One Night In Venice (1934), posteriormente para Londres e, finalmente para Paris onde tentou produzir junto de Jean Cocteau uma reprodução sonora de O Gabinete. Wiene morreu de câncer em Paris dez dias antes do fim da produção de um filme de espiões,Ultimatum.

Pais: Alemanha
Ano: 1919
Direção: Robert Wiene
Roteiro: Carl Mayer & Hans Jenowitz
Duração: 51 Minutos
Gênero: Mudo, P&B, Terror

Elenco:

Werner Krauss como Dr. Caligari
Conrad Veidt como Cesare
Friedrich Feher como Francis
Lil Dagover como Jane
Hans Heinrich von Twardowski como Alan
Rudolf Lettinger como Dr. Olson
Rudolf Klein-Rogge como “O Assassino”

A morte de Ivan Ilitch

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Postado originalmente no blog Sagaz: 04 / abril / 2010. 

A morte de Ivan Ilitch do russo Lev Tolstoi é um livro pertubador e de uma narrativa magistral poucas vezes alcançada na literatura mundial. Esse pequeno novel (85 páginas) difere de um conto devido unicamente ao seu tamanho e, de um romance, pela trama focar apenas na personagem principal.

A obra retrata a vida do burocrata Ivan Ilitch e sua agonia diante da sua atroz doença terminal. Ilitch teme a morte mais que tudo, pois percebe que sua vida deveria ter sido mais proveitosa, sincera e menos fútil.

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A narrativa começa no velório. Em seguida, retrata o casamento com sua esposa (época em que ainda eram felizes junto aos seus dois filhos). À medida que Ivan Ilitch vai subindo de cargo, a burocracia, inconscientemente vai tornando sua vida insatisfatória e desprovida de qualquer significado especial.

Com o tempo Ilitch torna-se um juiz respeitado e recebe uma oferta para morar em outra cidade. Logo compra uma casa e começa a fazer sua decoração. Enquanto trabalhava nesta, Ivan Ilitch leva uma queda da escada, batendo a região do seu rim. Eis, então, o início de seu infortúnio.

Além da doença, tudo piora a partir do momento em que as brigas com sua esposa ficam mais constantes e conforme suas dores começam a se agravar. Ilitch usa seu emprego como válvula de escape.

Conforme suas dores tornam-se insuportáveis, a realidade crua é exposta a personagem. Ilitch percebe que sua vida quanto mais afastada de sua infância, mais vazia foi ficando. Família, emprego, amizades… tudo não passa de uma ilusão. Exceto, talvez, os momentos em que passava junto ao seu criado, que realmente se preocupava com Ilitch durante os momentos de sofrimento.

De certa forma, o livro é um soco no estômago. O ato de morrer é desprovido de qualquer significado ou explicação, o niilismo,  a nadificação, o vazio existencial.

Conforme a leitura se aprofunda, encaramos na morte da personagem o reflexo da nossa própria existência que se esvai gradativamente. A agonia de Ivan Ilicht é terrível, a sua falta de respostas,  sua angústia, sua vontade de viver, o seu medo e o sofrimento acabam encravados  em nossa alma.

Tolstoi

O livro é uma autobiografia do autor, o qual dizia que levava uma vida desregrada por viver constantemente envolvido com jogatinas, bebidas, prostitutas… Desregramento apenas contido pela sua busca espiritual e fé, porém constantemente abalada por crises existenciais ao longo de sua vida. O próprio Tolstói dizia: ” não passo um dia em minha vida sem pensar na morte”.

Em vista de tudo isso, A Morte de Ivan Ilitch está entre as obras consideradas universais, pois suas inquietações e angústias pertencem a vida de qualquer ser humano seja qual for sua época. Ajuda-nos, portanto, a refletir sobre a nossa frágil condição humana e sobre o momento final que encerra nossa existência.

Noites de circo

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Postado originalmente no blog Sagaz: 22 / agosto / 2010

Dramático e com um fino toque de melancolia, Noites de Circo relata a crise de relacionamento entre Albert Johason (dono do circo) e sua esposa Ane que acaba se rendendo a uma aventura amorosa com um ator local.

Gravado no início da carreira do diretor (Bergman), Noites de Circo (Suécia, 1953) foi massacrado pela crítica em sua estréia, principalmente pelo seu tom sombrio e revelador, permanecendo desconhecido por longos anos. O filme mostra um grupo de circo que viaja pelo interior da Suécia e que vive em condições precárias, à beira da miséria.

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De acordo com muitos críticos, Noites de circo  faz parte dos primeiros cliclos de grandes obras dirigidas por Bergman.

Na primeira cena, o circo chega à cidade natal de Albert e ele fica sabendo da trágica história do seu palhaço (Frost) diante da infidelidade de sua esposa. Essa parte é narrada no melhor estilo do expressionismo alemão, sem utilizar qualquer tipo de diálogo.

Na seqüência, Ane, Amazona do circo e esposa de Albert, acaba entrando em um perigoso jogo de sedução com um ator de um teatro local. Enquanto isso, Albert visita sua ex-mulher e acaba conhecendo o seu filho. Albert então faz uma proposta para a sua antiga companheira, dizendo que abandonaria a vida no circo para voltar a morar com ela. A mesma rejeita, dizendo querer paz e que não gostaria de ter com ele, qualquer tipo de envolvimento.

Sem dúvida, Noites de circo, demonstra o tempo todo a condição de humilhado e ofendido, típico das temáticas encontradas nos romances do escritor russo Dostoiévksi. Esses personagens sabem dessa terrível sina e lutam a todo custo por um mínimo de reconhecimento e dignidade.

A cena em que Albert visita o diretor de uma peça de teatro demonstra a humilhação no qual os circenses estão sujeitos. O diretor da peça rebaixa Albert dizendo que os atores de circo são inferiores aos atores de teatro em todos os aspectos.

O drama se apresenta sob diversas outras formas: o tempo todo os circenses são assolados pela fome, tristeza, longas viagens e pelo mau cheiro dos locais de suas carroças. Outra cena dramática é quanto ao sofrimento do urso, mascote e principal atração do circo, que sofre de uma doença sem cura.

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A capa do filme: Noites de circo, revela traços da melancolia e tristeza dos personagens.

 O filme mesmo não sendo o magnus opus do diretor – isso se compararmos ao Sétimo Selo e Morango Silvestre – acaba tendo um grande destaque na carreira de Ingmar Bergman.

Essa película sombria e envolvente, consegue mostrar as profundezas da alma de personagens que a todo instante buscam trazer alegria, inovação e felicidade para as platéias, mesmo que em oposição carreguem sentimentos de tristeza, ressentimento e frustração.

Direção – Ingmar Bergman

Ano – 1953

País de produção – Suécia, Estados Unidos

Idioma – Sueco

Elenco – Harriet Andersson, Åke Grönberg, Anders Ek, Gudrun Brost, Hakke Ekman, Annika Tretow, Kiki, Erik Strandmark, Curt Löwgren, Goran Lundstrom,

Duração – 89 min

Jovens perdidos: O prazer de matar

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Apesar de encontrar adolescentes vindos das classes médias envolvidos com a criminalidade, em sua maioria, eles são oriundos da periferia e pertencentes às classes trabalhadoras mais pobres. Contudo, Spagnol faz uma observação: “ocorre que nessa mesma periferia, encontramos adolescentes, submetidos às mesmas condições sociais, que em nenhum momento de sua vida envolvem-se com o mundo do crime” (Spagnol, 2008, p. 24). Pelo contrário, possuem um discurso que nega essa prática, procurando estes uma normalidade na vida através do binômio escola-trabalho.

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O antagonismo entre uma região pauperizada e um bairro nobre

Segundo Spagnol, os jovens delinquentes que concedem entrevistas – apesar de demonstrarem ser uma ameaça – mais parecem jovens perdidos em um mundo caótico; onde acabam reagindo a ele através do uso da violência. Dessa maneira, muitos dos assassinatos brutais, não assumem a forma de um aspecto particularista, ou seja, o ataque não é desferido contra o individuo em si. Na verdade, no mundo moderno, há um predomínio da indiferença no relacionamento humano.

Diferente da modernidade, a violência ao longo da história esteve relacionada à questão da honra e vingança. Com o processo civilizador esses códigos de honra foram sendo transformados. A consolidação dessa mudança ocorreu através do monopólio do uso legitimo da violência e pelo monopólio fiscal exercido através do Estado. “Pois quando não existe qualquer monopólio militar ou policial e quando, por conseguinte, a insegurança é constante, a violência individual, a agressividade é uma necessidade vital” (Lipovetsky, 199{.}:177).

O processo do individualismo foi diluindo a postura da vingança. Esses tipos de ofensas passaram a ser tido pela maioria como algo de menor relevância. O resultado disso é que o Estado moderno criou um individuo mais ausente na relação com os seus semelhantes. Isso gerou uma lógica hiper-individualista. Os atores sociais, procuram efetivar a maximização dos seus interesses através da constante busca material ou até mesmo de  uma maior autonomia, seja por meios legais ou através de meios ilícitos como o uso da violência.

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Segundo Spagnol uma variante determinante para a violência desses jovens está relacionado ao processo de um individualismo exacerbado, estabelecido na modernidade

Com isso, perde-se a confiança no outro, pois aqueles próximos são potenciais competidores, ou até mesmo um inimigo ou um obstáculo a ser superado e vencido. Com isso, por mais que o indivíduo viva e interaja com outros indivíduos, nem sempre existe um vínculo afetivo entre eles. Esse campo passa a ser predominado pela indiferença e pela solidão.

Spagnol, além disso, analisa a relação entre o erotismo e a violência através do uso de outras fontes bibliográficas. “Atirar em alguém, esfaquear um corpo, cortar partes dele, esmagar a carne parece envolver toda uma sensualidade recheada de significados.” (Spagnol, 2008, p.172).

Na concepção do autor, fazer o mal está sempre relacionado a prejudicar o outro, ou seja, fazê-lo sofrer. Quando se trata de um crime brutal que choca a opinião pública, esse mal passa a ser repudiado. Por outro lado, esse mesmo mal também assume a forma de uma vingança que acaba sendo travestida por um discurso de justiça por parte da população.

As maiorias desses jovens que dão entrevistas acabam agindo através de uma postura de resignação. No geral, eles não ficam revoltados com essa situação, aceitam o destino como se fosse uma providência divina. Além disso, esses jovens entrevistados também demonstram certo grau de horror por seus atos. O indivíduo mata sem tentar morrer, através de uma violência sem projeto partilhada pela busca de uma lógica em um processo de personalização.

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Jovem da periferia

Mas será que é possível vislumbrar um futuro para esses jovens? Atualmente, não se sustenta a idéia de que a inserção no mercado de trabalho por si só é suficiente para uma modificação favorável. Portanto, para uma transformação de fato, é necessário ser estabelecido o resgate da cidadania.

Esse resgate deve vir no sentido de inseri-los em novos meios sociais dando um sentido a sua existência. Contudo, essa inserção social não deve se restringir as propostas da classe média. Resgatar a cidadania não se limita apenas a questão de adquirir um emprego formal ou informal.

Esses jovens não reconhecem esse sentido de inclusão, mesmo porque muitos desses programas não propiciam dignidade em suas novas relações. Na ausência dessa cidadania, eles não têm nenhum tipo de participação frente à sociedade. Já no caso do tráfico, ele pode ser visto como uma maneira de resgate, chegando até mesmo a trazer benefícios imediatos para muitos desses jovens. Há uma necessidade de resgate através de medidas efetivas como o melhoramento da autoestima desses jovens, a reurbanização das periferias e até mesmo mudanças estruturais profundas que os retirem da vida degradante e os levem para um novo patamar social.

Jovens perdidos: A brutalização da vida

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O presente artigo constitui uma aproximação ao tema da juventude e criminalidade, no trabalho: Jovens Delinquentes – um Estudo Sobre Jovens Delinquentes na Cidade de São Paulo, do sociólogo Antonio Sergio Spagnol.

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Segundo Spagnol, o modo de inserção social dos jovens que pertencem às diferentes gangues em São Paulo pode ser distinto, mas há uma marca em todos eles: o uso da violência como forma de maior expressão

Entre os diversos métodos utilizados por Spagnol busca pesquisar processos judiciais, manchetes de jornais e revistas sobre assaltos, homicídeos e outros crimes envolvendo jovens. Ele observa que a maioria que comete essas infrações, sentem um certo prazer que pretende manter o outro ao seu poder durante o ato. Desse modo ele análise que não é somente uma resposta à sociedade que o marginaliza, mas também o surgimento de uma individualidade que permeia as ações desses adolescentes (Spagnol, 2008, p. 27).

Num segundo passo, Spagnol mapeia a cidade procurando saber as regiões de maior periculosidade. Dessa forma para saber se uma região é violenta, o autor considerou os números de homicídios registrados pela Polícia Militar de São Paulo e dados de Centros de Pesquisa. O próximo passo constitui sua ida até a FEBEM (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), onde passou a entrevistar diversos adolescentes deliquentes. No começo, o autor relata que se sentia incomodado, pois a maioria deles eram maior e mais forte do que ele fisícamente, mas com o tempo ele foi conseguindo uma aproximação maior.

O autor relata que a pesquisa foi solitária, lenta e complicada, pois não obteve, por exemplo, auxílio de alunos ou de outras pessoas. Sua entrada nos bairros da periferia lhe causou medo, embora, ao mesmo tempo, algum prazer por estar próximo de desvendar aquilo a que se propôs, bem como sentia o mesmo medo ao visitar os bairros de classe média.

A inquietação do autor reside na crueldade com que esses adolescentes tratam as suas vítimas. Pois não se trata de apenas matar, mas de matar de modo cruel, bárbaro, sanguinolento e sem nenhum arrependimento por parte do autor. Além do fato de suas vítimas serem também adolescentes. Nisto, a faixa etária é um fator de destaque, pois como já dito, são adolescentes cometendo homicídios contra outros adolescentes e de maneira cruel. Tal crueldade, segundo o autor, leva a sociedade, de maneira geral, responder a esses adolescentes com preconceito e discriminação proporcionais à violência que estes cometeram.

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Jovens sendo abordados pela polícia

No início do capítulo 6, o autor utiliza trechos extraídos do conto Feliz ano novo do literato Rubem Fonseca. Nesse conto, Spagnol relaciona a ideia da narrativa ao encontro entre dominadores e dominados, principalmente quando o morador rendido tenta estabelecer e remediar a ordem nessa situação. Para se fazer notar essa relação, o autor do conto utiliza a dicotomia entre a pobreza e a riqueza.

Mas a relação de poder está invertida. Quem manda na situação são os criminosos. Assim o uso da violência por parte dos jovens, conforme citado no conto é a ação que tem como intenção finalizar o conflito. Esse ato violento, não é um ato qualquer, mas um ato destruidor que destrói a vida do outro, para demonstrar a sua inferioridade. Destruir o outro tem como objetivo conquistar um pertencimento no qual fora negado ao agressor.

Diferente das circunstâncias demonstradas a partir do conto de Rubens da Fonseca, os homicídios mais aceitos pela sociedade de forma geral são aquelas no qual o autor social demonstra uma insanidade temporária, isto é, “aqueles gerados por uma matança justificada” (Spagnol, 2008, p. 143). Já em casos de violência onde quase ou nenhum bem material é levado, são tidos pela maioria como crimes insensatos. A população em geral entende muito mais quando esses atos criminosos estão relacionados a uma questão sobrevivência.

Quanto à rotina desses jovens, Spagnol nota que eles passam grande parte do tempo no ócio, sem fazer nada. Quando o contrário, eles passam o dia inteiro vendo televisão, jogando bola, empinando pipa, usando drogas ou praticando sexo. Após um crime eles se afastam do combate, geralmente por algumas semanas.

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Jovem sendo preso pela PM de São Paulo.

É importante notar que os crimes hediondos são raros. Esses tipos de crimes entre os jovens não fazem parte da sua rotina. Aquilo que os fascina é a própria ação dentro do crime. Enquanto os adultos fazem do crime uma profissão, os jovens e adolescentes, no geral, são movidos pela sensação de emoção. Spagnol analisa que em diversos momentos da sua pesquisa, os jovens sentiam-se empolgados e relatavam euforicamente os momentos de seus assaltos e assassinatos com uma grande riqueza de detalhes. O autor relata que é praticamente impossível anotar tudo aquilo que eles relatavam. Mesmo aqueles internados na Febem tinham a mesma postura dos demais.

Partindo da perspectiva teórica de Bourdieu, podemos notar que o espaço de relacionamento entre esses jovens é tão real quanto o espaço físico. É nesse local que existe uma série de disputa de poderes, onde a interação oferece trocas simbólicas inclusivas que demarcam a presença de territórios estabelecidos entre os seus membros. Essa representação gera a identidade social.

Ao longo das entrevistas, o autor nota que não é raro jovens da periferia referir-se pejorativamente aos jovens de outras regiões como ‘boyzinhos’ ou ‘patricinhas’. Além de ofensas como ‘cuzão’ ou ‘bundão’ para agredi-los. “O outro aqui não é somente o indivíduo, mas a cidade como um espelho também o reflete” (Spagnol, 2008, p.151).

Outro aspecto que o autor procura levar em conta é quanto os prejuízos que o capitalismo trouxe para os indivíduos. Em determinados contexto sociais, nem sempre é possível construir aspectos positivos relacionados à experiência bibliográfica acerca da identidade social. As pessoas que não conseguem se enquadrar nessa lógica de produção e consumo acabam sendo ‘excluídas do sistema’. Resta, então, para esses jovens, o sentimento de ‘humilhados e ofendidos’ em função da ideia de fracasso. O resultado é que a violência acaba sendo a resposta contra outros tipos de violência.

Outra perspectiva a ser levada em conta é quanto o enfraquecimento dos laços sociais, em especial aqueles relacionados à amizade, sobretudo, entre os homens. Com o tempo a amizade entre o sexo masculino foi tido como erótica. Com isso a adolescência passou a ser um dispositivo de poder de inúmeras instituições. A homossexualidade passou a ser vigiada e punida por um mundo adulto heterocentrado. Tudo isso levou ao aumento do culto da imagem viril, não só entre os jovens das periferias como também daqueles que estão estabelecidos na classe média. Em ambas as classes existe uma forte intolerância e desprezo contra outros jovens que fogem de um certo padrão de masculinidade, ou seja uma conduta heteronormativa.

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Assalto à mão armada

Além dessa questão, o imediatismo por querer ter algo dentro de uma lógica do consumo também é presente não só entre os jovens da periferia como também aqueles estabelecidos na classe média. Em outras palavras: o culto da individualidade aflinge todas as classes sociais. Contudo a principal diferença é que o jovem da classe média já tem um futuro razoavelmente planejado, enquanto o jovem da periferia ‘vive o hoje’. Para eles o que importa é o ‘aquir aqui e agora’ e não um futuro obscuro. E caso alguém tente impedir dele ter aquilo que ele deseja, pode ser que o resultado seja a destruição do seu obstáculo. Em função disso, a sociedade condena e jamais aceita esse tipo de conduta.

No próximo texto, vamos análisar o prazer de matar entre esses jovens e a questão da reintegração e cidadania dos mesmos. Aguarde.

Elias Canetti: A interação entre a força e o poder

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Elias Canetti nasceu em 1905 na cidade de Ruschuk, na Bulgária, de uma influente família de judeus. Em 1911, estabeleceu-se em Manchester, na Inglaterra, onde seu pai se associara a um próspero cunhado em uma casa comercial. Após a morte prematura do pai, em 1913, mudou-se com a mãe – mulher culta e autoritária – e os irmãos para Viena, de onde presenciou a Primeira Guerra. Continuando os estudos escolares em Zurique, na Suíça, e em Frankfurt, cursou faculdade de química em Viena, e depois se para mudou Londres, fugindo do nazismo.

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O surgimento do nazismo e a adesão das massas.

Massa e poder, ensaio polêmico publicado em 1960 – talvez sua grande obra-prima – reflete a respeito de um pensamento que nasceu após o autor presenciar o espetáculo de adesão crescente das massas populares às organizações nazistas, na Alemanha e na Áustria dos anos 30. Nessa obra, Canetti dedica um capítulo para analisar a relação entre força e poder.

Dessa forma, para Cannetti a força é algo mais imediato e coercitivo do que o poder. Uma presa é aquilo que é capturado por uma força. O poder em seus estágios mais profundos ocorre antes da força. O poder é mais universal, prolongado e amplo. Ele é cerimonioso e possui até certo grau de paciência. “Em um momento crítico o poder pode assumir a sua forma pura e ser convertido em força” (CANETTI p.281).

As características da força e poder pode ser notado de uma forma bem simples; através da analogia do gato e rato. É o jogo da caça e do caçador. Quando o rato é capturado fica entregue aos caprichos do seu algoz, o gato. Brincando com sua presa, o gato a deixa correr dando o sentimento ilusório de liberdade, mas logo o rato acaba novamente sendo capturado. O gato possui o poder para apanhá-lo novamente quando desejar. Contudo caso o caçador deixe a caça fugir prolongadamente, ela pode acabar conseguindo sua liberdade. Por isso cabe ao gato uma vigilância constante.

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O jogo do gato e rato representa a interação entre força e poder

Outro aspecto relevante é quanto aos animais surgirem como símbolos de status e poder. Representando ora os deuses, ora os ancestrais que possuem o poder. A Simbologia animal está profundamente gravada no inconsciente coletivo da humanidade. Gêngis Khan teve como representação o lobo. O Império romano era representado pelo símbolo da águia, assim como os Estados Unidos, atualmente. Muitas atribuições feitas às pessoas utilizam os animais como referência: Ele deve possuir a astúcia de uma raposa e ser forte como um leão como afirmava Maquiavel em sua obra o Príncipe. Contudo, alguns dos animais mais invejados são os felinos devido a sua grande velocidade.

Desde tempos imemoriais, a velocidade física acaba sendo uma característica do poder. A velocidade do poder deve ser intensificada ao máximo para surgir com maior eficácia. Ela pode vir acompanhada do efeito surpresa, algo que pode ser devastador em uma guerra. Outro efeito é o da perseguição, aprendido principalmente através dos animais de rapina. Desnecessário abordar os seus efeitos com o auxílio da tecnologia.

Segundo Canetti, a esfera da captura pertence também a outra espécie bastante diferente da velocidade – o desmascaramento. Muitas vezes, diante de um ser inofensivo ao arrancar sua máscara, encontrara um potencial inimigo. Para conseguir uma maior eficácia, o desmascaramento deve ser feito subitamente. A dissimulação inimiga passa a ser combatida da mesma forma. Para aqueles que possuem o poder, pouco comoverá caso apanhe por equívoco em um inocente.

Quanto à defesa, contra aquele que detém o poder, uma tática é se fazer de surdo ou desentendido para evitar os efeitos coercitivos da força. Aquele que é indefeso se recolhe em seu próprio interior, em silêncio. “Tal armadura interior para protegê-lo da pergunta é o segredo” (CANNETI p.284). O segredo é uma forma eficaz contra qualquer tipo de pergunta. O calar é uma forma extrema de defesa. Ademais, aquele que cala dá a impressão de ser mais perigoso do que realmente é. A resposta aprisiona aquele que falou sobre algo. Ele não pode mais facilmente abandoná-la. Ela obriga o posicionamento. Um grupo isolado e diminuto é capaz de guardar um segredo mais facilmente. Caso ele seja revelado o grupo aplicara algum tipo de sanção sobre os responsáveis. Dependendo do teor do segredo, o mesmo pode se tornar algo muito perigoso para os seus portadores ou ao contrário, aumentar ainda mais o poder para aqueles que o possuem.

Atingindo outras esferas, como no caso da religião, o poder também se encontra presente. Em muitas religiões a predestinação está presente nos aspectos da vida do devoto. Assim nas palavras de Canetti, o rato abatido pelo gato, é como se o fiel vivesse na boca de um Deus que a qualquer momento pode triturá-lo. Deve-se seguir vivendo e sempre fazer aquilo que o dogma impõe, ou seja, aquilo que é tido como a verdade.

E por último, a misericórdia é algo que todos possuem em certo grau ou nível. Muitos quando chegam ao poder são obrigados a perdoar, mais fazem apenas na aparência. Entre eles existem, o paranóico, que é aquele que dificilmente oferece o perdão. Ele pondera em excesso, demorando pra tomar uma decisão ou fica procurando motivos fictícios com o pretexto de não perdoar. Mais Canetti afirma que o detentor de poder não perdoa de fato. Todo o ato hostil permanece cuidadosamente registrado, ele o oculta e documenta. O seu ato generoso tem como objetivo a submissão de tudo aquilo que se opõe a ele.

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Livro de Elias Canetti: Massa e poder

Em resumo, Canetti passou as três décadas procurando decifrar os segredos profundos da humanidade em suas manifestações mais corriqueiras e terríveis ocasionadas pelas relações de poder – perseguição e captura; mandar e obedecer; matar e sobreviver; medo e voracidade; paranóia e poder. A sua obra Massa e poder, foi considerado um dos grandes momentos das letras no século XX. Em 1981, Canetti recebeu o prêmio Nobel de literatura.