O presente artigo constitui uma aproximação ao tema da juventude e criminalidade, no trabalho: Jovens Delinquentes – um Estudo Sobre Jovens Delinquentes na Cidade de São Paulo, do sociólogo Antonio Sergio Spagnol.

Segundo Spagnol, o modo de inserção social dos jovens que pertencem às diferentes gangues em São Paulo pode ser distinto, mas há uma marca em todos eles: o uso da violência como forma de maior expressão
Entre os diversos métodos utilizados por Spagnol busca pesquisar processos judiciais, manchetes de jornais e revistas sobre assaltos, homicídeos e outros crimes envolvendo jovens. Ele observa que a maioria que comete essas infrações, sentem um certo prazer que pretende manter o outro ao seu poder durante o ato. Desse modo ele análise que não é somente uma resposta à sociedade que o marginaliza, mas também o surgimento de uma individualidade que permeia as ações desses adolescentes (Spagnol, 2008, p. 27).
Num segundo passo, Spagnol mapeia a cidade procurando saber as regiões de maior periculosidade. Dessa forma para saber se uma região é violenta, o autor considerou os números de homicídios registrados pela Polícia Militar de São Paulo e dados de Centros de Pesquisa. O próximo passo constitui sua ida até a FEBEM (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), onde passou a entrevistar diversos adolescentes deliquentes. No começo, o autor relata que se sentia incomodado, pois a maioria deles eram maior e mais forte do que ele fisícamente, mas com o tempo ele foi conseguindo uma aproximação maior.
O autor relata que a pesquisa foi solitária, lenta e complicada, pois não obteve, por exemplo, auxílio de alunos ou de outras pessoas. Sua entrada nos bairros da periferia lhe causou medo, embora, ao mesmo tempo, algum prazer por estar próximo de desvendar aquilo a que se propôs, bem como sentia o mesmo medo ao visitar os bairros de classe média.
A inquietação do autor reside na crueldade com que esses adolescentes tratam as suas vítimas. Pois não se trata de apenas matar, mas de matar de modo cruel, bárbaro, sanguinolento e sem nenhum arrependimento por parte do autor. Além do fato de suas vítimas serem também adolescentes. Nisto, a faixa etária é um fator de destaque, pois como já dito, são adolescentes cometendo homicídios contra outros adolescentes e de maneira cruel. Tal crueldade, segundo o autor, leva a sociedade, de maneira geral, responder a esses adolescentes com preconceito e discriminação proporcionais à violência que estes cometeram.

Jovens sendo abordados pela polícia
No início do capítulo 6, o autor utiliza trechos extraídos do conto Feliz ano novo do literato Rubem Fonseca. Nesse conto, Spagnol relaciona a ideia da narrativa ao encontro entre dominadores e dominados, principalmente quando o morador rendido tenta estabelecer e remediar a ordem nessa situação. Para se fazer notar essa relação, o autor do conto utiliza a dicotomia entre a pobreza e a riqueza.
Mas a relação de poder está invertida. Quem manda na situação são os criminosos. Assim o uso da violência por parte dos jovens, conforme citado no conto é a ação que tem como intenção finalizar o conflito. Esse ato violento, não é um ato qualquer, mas um ato destruidor que destrói a vida do outro, para demonstrar a sua inferioridade. Destruir o outro tem como objetivo conquistar um pertencimento no qual fora negado ao agressor.
Diferente das circunstâncias demonstradas a partir do conto de Rubens da Fonseca, os homicídios mais aceitos pela sociedade de forma geral são aquelas no qual o autor social demonstra uma insanidade temporária, isto é, “aqueles gerados por uma matança justificada” (Spagnol, 2008, p. 143). Já em casos de violência onde quase ou nenhum bem material é levado, são tidos pela maioria como crimes insensatos. A população em geral entende muito mais quando esses atos criminosos estão relacionados a uma questão sobrevivência.
Quanto à rotina desses jovens, Spagnol nota que eles passam grande parte do tempo no ócio, sem fazer nada. Quando o contrário, eles passam o dia inteiro vendo televisão, jogando bola, empinando pipa, usando drogas ou praticando sexo. Após um crime eles se afastam do combate, geralmente por algumas semanas.

Jovem sendo preso pela PM de São Paulo.
É importante notar que os crimes hediondos são raros. Esses tipos de crimes entre os jovens não fazem parte da sua rotina. Aquilo que os fascina é a própria ação dentro do crime. Enquanto os adultos fazem do crime uma profissão, os jovens e adolescentes, no geral, são movidos pela sensação de emoção. Spagnol analisa que em diversos momentos da sua pesquisa, os jovens sentiam-se empolgados e relatavam euforicamente os momentos de seus assaltos e assassinatos com uma grande riqueza de detalhes. O autor relata que é praticamente impossível anotar tudo aquilo que eles relatavam. Mesmo aqueles internados na Febem tinham a mesma postura dos demais.
Partindo da perspectiva teórica de Bourdieu, podemos notar que o espaço de relacionamento entre esses jovens é tão real quanto o espaço físico. É nesse local que existe uma série de disputa de poderes, onde a interação oferece trocas simbólicas inclusivas que demarcam a presença de territórios estabelecidos entre os seus membros. Essa representação gera a identidade social.
Ao longo das entrevistas, o autor nota que não é raro jovens da periferia referir-se pejorativamente aos jovens de outras regiões como ‘boyzinhos’ ou ‘patricinhas’. Além de ofensas como ‘cuzão’ ou ‘bundão’ para agredi-los. “O outro aqui não é somente o indivíduo, mas a cidade como um espelho também o reflete” (Spagnol, 2008, p.151).
Outro aspecto que o autor procura levar em conta é quanto os prejuízos que o capitalismo trouxe para os indivíduos. Em determinados contexto sociais, nem sempre é possível construir aspectos positivos relacionados à experiência bibliográfica acerca da identidade social. As pessoas que não conseguem se enquadrar nessa lógica de produção e consumo acabam sendo ‘excluídas do sistema’. Resta, então, para esses jovens, o sentimento de ‘humilhados e ofendidos’ em função da ideia de fracasso. O resultado é que a violência acaba sendo a resposta contra outros tipos de violência.
Outra perspectiva a ser levada em conta é quanto o enfraquecimento dos laços sociais, em especial aqueles relacionados à amizade, sobretudo, entre os homens. Com o tempo a amizade entre o sexo masculino foi tido como erótica. Com isso a adolescência passou a ser um dispositivo de poder de inúmeras instituições. A homossexualidade passou a ser vigiada e punida por um mundo adulto heterocentrado. Tudo isso levou ao aumento do culto da imagem viril, não só entre os jovens das periferias como também daqueles que estão estabelecidos na classe média. Em ambas as classes existe uma forte intolerância e desprezo contra outros jovens que fogem de um certo padrão de masculinidade, ou seja uma conduta heteronormativa.

Assalto à mão armada
Além dessa questão, o imediatismo por querer ter algo dentro de uma lógica do consumo também é presente não só entre os jovens da periferia como também aqueles estabelecidos na classe média. Em outras palavras: o culto da individualidade aflinge todas as classes sociais. Contudo a principal diferença é que o jovem da classe média já tem um futuro razoavelmente planejado, enquanto o jovem da periferia ‘vive o hoje’. Para eles o que importa é o ‘aquir aqui e agora’ e não um futuro obscuro. E caso alguém tente impedir dele ter aquilo que ele deseja, pode ser que o resultado seja a destruição do seu obstáculo. Em função disso, a sociedade condena e jamais aceita esse tipo de conduta.
No próximo texto, vamos análisar o prazer de matar entre esses jovens e a questão da reintegração e cidadania dos mesmos. Aguarde.