A morte de Ivan Ilitch

Postado originalmente no blog Sagaz: 04 / abril / 2010. 

A morte de Ivan Ilitch do russo Lev Tolstoi é um livro pertubador e de uma narrativa magistral poucas vezes alcançada na literatura mundial. Esse pequeno novel (85 páginas) difere de um conto devido unicamente ao seu tamanho e, de um romance, pela trama focar apenas na personagem principal.

A obra retrata a vida do burocrata Ivan Ilitch e sua agonia diante da sua atroz doença terminal. Ilitch teme a morte mais que tudo, pois percebe que sua vida deveria ter sido mais proveitosa, sincera e menos fútil.

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A narrativa começa no velório. Em seguida, retrata o casamento com sua esposa (época em que ainda eram felizes junto aos seus dois filhos). À medida que Ivan Ilitch vai subindo de cargo, a burocracia, inconscientemente vai tornando sua vida insatisfatória e desprovida de qualquer significado especial.

Com o tempo Ilitch torna-se um juiz respeitado e recebe uma oferta para morar em outra cidade. Logo compra uma casa e começa a fazer sua decoração. Enquanto trabalhava nesta, Ivan Ilitch leva uma queda da escada, batendo a região do seu rim. Eis, então, o início de seu infortúnio.

Além da doença, tudo piora a partir do momento em que as brigas com sua esposa ficam mais constantes e conforme suas dores começam a se agravar. Ilitch usa seu emprego como válvula de escape.

Conforme suas dores tornam-se insuportáveis, a realidade crua é exposta a personagem. Ilitch percebe que sua vida quanto mais afastada de sua infância, mais vazia foi ficando. Família, emprego, amizades… tudo não passa de uma ilusão. Exceto, talvez, os momentos em que passava junto ao seu criado, que realmente se preocupava com Ilitch durante os momentos de sofrimento.

De certa forma, o livro é um soco no estômago. O ato de morrer é desprovido de qualquer significado ou explicação, o niilismo,  a nadificação, o vazio existencial.

Conforme a leitura se aprofunda, encaramos na morte da personagem o reflexo da nossa própria existência que se esvai gradativamente. A agonia de Ivan Ilicht é terrível, a sua falta de respostas,  sua angústia, sua vontade de viver, o seu medo e o sofrimento acabam encravados  em nossa alma.

Tolstoi

O livro é uma autobiografia do autor, o qual dizia que levava uma vida desregrada por viver constantemente envolvido com jogatinas, bebidas, prostitutas… Desregramento apenas contido pela sua busca espiritual e fé, porém constantemente abalada por crises existenciais ao longo de sua vida. O próprio Tolstói dizia: ” não passo um dia em minha vida sem pensar na morte”.

Em vista de tudo isso, A Morte de Ivan Ilitch está entre as obras consideradas universais, pois suas inquietações e angústias pertencem a vida de qualquer ser humano seja qual for sua época. Ajuda-nos, portanto, a refletir sobre a nossa frágil condição humana e sobre o momento final que encerra nossa existência.

Noites de circo

Postado originalmente no blog Sagaz: 22 / agosto / 2010

Dramático e com um fino toque de melancolia, Noites de Circo relata a crise de relacionamento entre Albert Johason (dono do circo) e sua esposa Ane que acaba se rendendo a uma aventura amorosa com um ator local.

Gravado no início da carreira do diretor (Bergman), Noites de Circo (Suécia, 1953) foi massacrado pela crítica em sua estréia, principalmente pelo seu tom sombrio e revelador, permanecendo desconhecido por longos anos. O filme mostra um grupo de circo que viaja pelo interior da Suécia e que vive em condições precárias, à beira da miséria.

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De acordo com muitos críticos, Noites de circo  faz parte dos primeiros cliclos de grandes obras dirigidas por Bergman.

Na primeira cena, o circo chega à cidade natal de Albert e ele fica sabendo da trágica história do seu palhaço (Frost) diante da infidelidade de sua esposa. Essa parte é narrada no melhor estilo do expressionismo alemão, sem utilizar qualquer tipo de diálogo.

Na seqüência, Ane, Amazona do circo e esposa de Albert, acaba entrando em um perigoso jogo de sedução com um ator de um teatro local. Enquanto isso, Albert visita sua ex-mulher e acaba conhecendo o seu filho. Albert então faz uma proposta para a sua antiga companheira, dizendo que abandonaria a vida no circo para voltar a morar com ela. A mesma rejeita, dizendo querer paz e que não gostaria de ter com ele, qualquer tipo de envolvimento.

Sem dúvida, Noites de circo, demonstra o tempo todo a condição de humilhado e ofendido, típico das temáticas encontradas nos romances do escritor russo Dostoiévksi. Esses personagens sabem dessa terrível sina e lutam a todo custo por um mínimo de reconhecimento e dignidade.

A cena em que Albert visita o diretor de uma peça de teatro demonstra a humilhação no qual os circenses estão sujeitos. O diretor da peça rebaixa Albert dizendo que os atores de circo são inferiores aos atores de teatro em todos os aspectos.

O drama se apresenta sob diversas outras formas: o tempo todo os circenses são assolados pela fome, tristeza, longas viagens e pelo mau cheiro dos locais de suas carroças. Outra cena dramática é quanto ao sofrimento do urso, mascote e principal atração do circo, que sofre de uma doença sem cura.

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A capa do filme: Noites de circo, revela traços da melancolia e tristeza dos personagens.

 O filme mesmo não sendo o magnus opus do diretor – isso se compararmos ao Sétimo Selo e Morango Silvestre – acaba tendo um grande destaque na carreira de Ingmar Bergman.

Essa película sombria e envolvente, consegue mostrar as profundezas da alma de personagens que a todo instante buscam trazer alegria, inovação e felicidade para as platéias, mesmo que em oposição carreguem sentimentos de tristeza, ressentimento e frustração.

Direção – Ingmar Bergman

Ano – 1953

País de produção – Suécia, Estados Unidos

Idioma – Sueco

Elenco – Harriet Andersson, Åke Grönberg, Anders Ek, Gudrun Brost, Hakke Ekman, Annika Tretow, Kiki, Erik Strandmark, Curt Löwgren, Goran Lundstrom,

Duração – 89 min

Jovens perdidos: O prazer de matar

Apesar de encontrar adolescentes vindos das classes médias envolvidos com a criminalidade, em sua maioria, eles são oriundos da periferia e pertencentes às classes trabalhadoras mais pobres. Contudo, Spagnol faz uma observação: “ocorre que nessa mesma periferia, encontramos adolescentes, submetidos às mesmas condições sociais, que em nenhum momento de sua vida envolvem-se com o mundo do crime” (Spagnol, 2008, p. 24). Pelo contrário, possuem um discurso que nega essa prática, procurando estes uma normalidade na vida através do binômio escola-trabalho.

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O antagonismo entre uma região pauperizada e um bairro nobre

Segundo Spagnol, os jovens delinquentes que concedem entrevistas – apesar de demonstrarem ser uma ameaça – mais parecem jovens perdidos em um mundo caótico; onde acabam reagindo a ele através do uso da violência. Dessa maneira, muitos dos assassinatos brutais, não assumem a forma de um aspecto particularista, ou seja, o ataque não é desferido contra o individuo em si. Na verdade, no mundo moderno, há um predomínio da indiferença no relacionamento humano.

Diferente da modernidade, a violência ao longo da história esteve relacionada à questão da honra e vingança. Com o processo civilizador esses códigos de honra foram sendo transformados. A consolidação dessa mudança ocorreu através do monopólio do uso legitimo da violência e pelo monopólio fiscal exercido através do Estado. “Pois quando não existe qualquer monopólio militar ou policial e quando, por conseguinte, a insegurança é constante, a violência individual, a agressividade é uma necessidade vital” (Lipovetsky, 199{.}:177).

O processo do individualismo foi diluindo a postura da vingança. Esses tipos de ofensas passaram a ser tido pela maioria como algo de menor relevância. O resultado disso é que o Estado moderno criou um individuo mais ausente na relação com os seus semelhantes. Isso gerou uma lógica hiper-individualista. Os atores sociais, procuram efetivar a maximização dos seus interesses através da constante busca material ou até mesmo de  uma maior autonomia, seja por meios legais ou através de meios ilícitos como o uso da violência.

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Segundo Spagnol uma variante determinante para a violência desses jovens está relacionado ao processo de um individualismo exacerbado, estabelecido na modernidade

Com isso, perde-se a confiança no outro, pois aqueles próximos são potenciais competidores, ou até mesmo um inimigo ou um obstáculo a ser superado e vencido. Com isso, por mais que o indivíduo viva e interaja com outros indivíduos, nem sempre existe um vínculo afetivo entre eles. Esse campo passa a ser predominado pela indiferença e pela solidão.

Spagnol, além disso, analisa a relação entre o erotismo e a violência através do uso de outras fontes bibliográficas. “Atirar em alguém, esfaquear um corpo, cortar partes dele, esmagar a carne parece envolver toda uma sensualidade recheada de significados.” (Spagnol, 2008, p.172).

Na concepção do autor, fazer o mal está sempre relacionado a prejudicar o outro, ou seja, fazê-lo sofrer. Quando se trata de um crime brutal que choca a opinião pública, esse mal passa a ser repudiado. Por outro lado, esse mesmo mal também assume a forma de uma vingança que acaba sendo travestida por um discurso de justiça por parte da população.

As maiorias desses jovens que dão entrevistas acabam agindo através de uma postura de resignação. No geral, eles não ficam revoltados com essa situação, aceitam o destino como se fosse uma providência divina. Além disso, esses jovens entrevistados também demonstram certo grau de horror por seus atos. O indivíduo mata sem tentar morrer, através de uma violência sem projeto partilhada pela busca de uma lógica em um processo de personalização.

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Jovem da periferia

Mas será que é possível vislumbrar um futuro para esses jovens? Atualmente, não se sustenta a idéia de que a inserção no mercado de trabalho por si só é suficiente para uma modificação favorável. Portanto, para uma transformação de fato, é necessário ser estabelecido o resgate da cidadania.

Esse resgate deve vir no sentido de inseri-los em novos meios sociais dando um sentido a sua existência. Contudo, essa inserção social não deve se restringir as propostas da classe média. Resgatar a cidadania não se limita apenas a questão de adquirir um emprego formal ou informal.

Esses jovens não reconhecem esse sentido de inclusão, mesmo porque muitos desses programas não propiciam dignidade em suas novas relações. Na ausência dessa cidadania, eles não têm nenhum tipo de participação frente à sociedade. Já no caso do tráfico, ele pode ser visto como uma maneira de resgate, chegando até mesmo a trazer benefícios imediatos para muitos desses jovens. Há uma necessidade de resgate através de medidas efetivas como o melhoramento da autoestima desses jovens, a reurbanização das periferias e até mesmo mudanças estruturais profundas que os retirem da vida degradante e os levem para um novo patamar social.

Jovens perdidos: A brutalização da vida

O presente artigo constitui uma aproximação ao tema da juventude e criminalidade, no trabalho: Jovens Delinquentes – um Estudo Sobre Jovens Delinquentes na Cidade de São Paulo, do sociólogo Antonio Sergio Spagnol.

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Segundo Spagnol, o modo de inserção social dos jovens que pertencem às diferentes gangues em São Paulo pode ser distinto, mas há uma marca em todos eles: o uso da violência como forma de maior expressão

Entre os diversos métodos utilizados por Spagnol busca pesquisar processos judiciais, manchetes de jornais e revistas sobre assaltos, homicídeos e outros crimes envolvendo jovens. Ele observa que a maioria que comete essas infrações, sentem um certo prazer que pretende manter o outro ao seu poder durante o ato. Desse modo ele análise que não é somente uma resposta à sociedade que o marginaliza, mas também o surgimento de uma individualidade que permeia as ações desses adolescentes (Spagnol, 2008, p. 27).

Num segundo passo, Spagnol mapeia a cidade procurando saber as regiões de maior periculosidade. Dessa forma para saber se uma região é violenta, o autor considerou os números de homicídios registrados pela Polícia Militar de São Paulo e dados de Centros de Pesquisa. O próximo passo constitui sua ida até a FEBEM (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), onde passou a entrevistar diversos adolescentes deliquentes. No começo, o autor relata que se sentia incomodado, pois a maioria deles eram maior e mais forte do que ele fisícamente, mas com o tempo ele foi conseguindo uma aproximação maior.

O autor relata que a pesquisa foi solitária, lenta e complicada, pois não obteve, por exemplo, auxílio de alunos ou de outras pessoas. Sua entrada nos bairros da periferia lhe causou medo, embora, ao mesmo tempo, algum prazer por estar próximo de desvendar aquilo a que se propôs, bem como sentia o mesmo medo ao visitar os bairros de classe média.

A inquietação do autor reside na crueldade com que esses adolescentes tratam as suas vítimas. Pois não se trata de apenas matar, mas de matar de modo cruel, bárbaro, sanguinolento e sem nenhum arrependimento por parte do autor. Além do fato de suas vítimas serem também adolescentes. Nisto, a faixa etária é um fator de destaque, pois como já dito, são adolescentes cometendo homicídios contra outros adolescentes e de maneira cruel. Tal crueldade, segundo o autor, leva a sociedade, de maneira geral, responder a esses adolescentes com preconceito e discriminação proporcionais à violência que estes cometeram.

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Jovens sendo abordados pela polícia

No início do capítulo 6, o autor utiliza trechos extraídos do conto Feliz ano novo do literato Rubem Fonseca. Nesse conto, Spagnol relaciona a ideia da narrativa ao encontro entre dominadores e dominados, principalmente quando o morador rendido tenta estabelecer e remediar a ordem nessa situação. Para se fazer notar essa relação, o autor do conto utiliza a dicotomia entre a pobreza e a riqueza.

Mas a relação de poder está invertida. Quem manda na situação são os criminosos. Assim o uso da violência por parte dos jovens, conforme citado no conto é a ação que tem como intenção finalizar o conflito. Esse ato violento, não é um ato qualquer, mas um ato destruidor que destrói a vida do outro, para demonstrar a sua inferioridade. Destruir o outro tem como objetivo conquistar um pertencimento no qual fora negado ao agressor.

Diferente das circunstâncias demonstradas a partir do conto de Rubens da Fonseca, os homicídios mais aceitos pela sociedade de forma geral são aquelas no qual o autor social demonstra uma insanidade temporária, isto é, “aqueles gerados por uma matança justificada” (Spagnol, 2008, p. 143). Já em casos de violência onde quase ou nenhum bem material é levado, são tidos pela maioria como crimes insensatos. A população em geral entende muito mais quando esses atos criminosos estão relacionados a uma questão sobrevivência.

Quanto à rotina desses jovens, Spagnol nota que eles passam grande parte do tempo no ócio, sem fazer nada. Quando o contrário, eles passam o dia inteiro vendo televisão, jogando bola, empinando pipa, usando drogas ou praticando sexo. Após um crime eles se afastam do combate, geralmente por algumas semanas.

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Jovem sendo preso pela PM de São Paulo.

É importante notar que os crimes hediondos são raros. Esses tipos de crimes entre os jovens não fazem parte da sua rotina. Aquilo que os fascina é a própria ação dentro do crime. Enquanto os adultos fazem do crime uma profissão, os jovens e adolescentes, no geral, são movidos pela sensação de emoção. Spagnol analisa que em diversos momentos da sua pesquisa, os jovens sentiam-se empolgados e relatavam euforicamente os momentos de seus assaltos e assassinatos com uma grande riqueza de detalhes. O autor relata que é praticamente impossível anotar tudo aquilo que eles relatavam. Mesmo aqueles internados na Febem tinham a mesma postura dos demais.

Partindo da perspectiva teórica de Bourdieu, podemos notar que o espaço de relacionamento entre esses jovens é tão real quanto o espaço físico. É nesse local que existe uma série de disputa de poderes, onde a interação oferece trocas simbólicas inclusivas que demarcam a presença de territórios estabelecidos entre os seus membros. Essa representação gera a identidade social.

Ao longo das entrevistas, o autor nota que não é raro jovens da periferia referir-se pejorativamente aos jovens de outras regiões como ‘boyzinhos’ ou ‘patricinhas’. Além de ofensas como ‘cuzão’ ou ‘bundão’ para agredi-los. “O outro aqui não é somente o indivíduo, mas a cidade como um espelho também o reflete” (Spagnol, 2008, p.151).

Outro aspecto que o autor procura levar em conta é quanto os prejuízos que o capitalismo trouxe para os indivíduos. Em determinados contexto sociais, nem sempre é possível construir aspectos positivos relacionados à experiência bibliográfica acerca da identidade social. As pessoas que não conseguem se enquadrar nessa lógica de produção e consumo acabam sendo ‘excluídas do sistema’. Resta, então, para esses jovens, o sentimento de ‘humilhados e ofendidos’ em função da ideia de fracasso. O resultado é que a violência acaba sendo a resposta contra outros tipos de violência.

Outra perspectiva a ser levada em conta é quanto o enfraquecimento dos laços sociais, em especial aqueles relacionados à amizade, sobretudo, entre os homens. Com o tempo a amizade entre o sexo masculino foi tido como erótica. Com isso a adolescência passou a ser um dispositivo de poder de inúmeras instituições. A homossexualidade passou a ser vigiada e punida por um mundo adulto heterocentrado. Tudo isso levou ao aumento do culto da imagem viril, não só entre os jovens das periferias como também daqueles que estão estabelecidos na classe média. Em ambas as classes existe uma forte intolerância e desprezo contra outros jovens que fogem de um certo padrão de masculinidade, ou seja uma conduta heteronormativa.

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Assalto à mão armada

Além dessa questão, o imediatismo por querer ter algo dentro de uma lógica do consumo também é presente não só entre os jovens da periferia como também aqueles estabelecidos na classe média. Em outras palavras: o culto da individualidade aflinge todas as classes sociais. Contudo a principal diferença é que o jovem da classe média já tem um futuro razoavelmente planejado, enquanto o jovem da periferia ‘vive o hoje’. Para eles o que importa é o ‘aquir aqui e agora’ e não um futuro obscuro. E caso alguém tente impedir dele ter aquilo que ele deseja, pode ser que o resultado seja a destruição do seu obstáculo. Em função disso, a sociedade condena e jamais aceita esse tipo de conduta.

No próximo texto, vamos análisar o prazer de matar entre esses jovens e a questão da reintegração e cidadania dos mesmos. Aguarde.

O suplício dos condenados

Por muitos séculos, o destino daqueles que foram acusados de algum delito grave era muitas vezes o suplício. O condenado era executado através de inúmeros métodos de tortura. Ao longo da história, várias pessoas foram condenadas a morte, entre elas muitas personalidades históricas como: Jesus Cristo, Joana D´Arc e Willian Wallace.

A fogueira de execução é uma das diversas formas de suplício

Em sua obra, Vigiar e Punir,  filósofo e professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento  Michel Foucault discorre sobre a pena enquanto meio de punição e coerção, revelando uma forma de controle social aplicado às sociedades de outras épocas, especialmente naquelas que perdurou ao longo do regime monárquico.  Além disso, o autor analisa o nascimento das prisões junto a um complexo científico-judiciário.

Logo no início, Foucault descreve  a execução brutal de um homem que cometeu parricídio (assassinato do pai). Através dos relatos de um guarda, soube-se que o condenado, ao chegar ao patíbulo, foi erguido e atenazado nos mamilos, braços, coxas e  pernas; depois queimado com fogo de enxofre, chumbo derretido, óleo fervente e, em seguida, seu corpo foi puxado por quatro cavalos com o objetivo de desmembra-lhe. Como esse método não surtiu o efeito esperado, tentou-se utilizar seis cavalos e, mesmo assim, sem grande resultado. Dessa forma, seu corpo fora cortado em pedaços pelo carrasco, atirado ao fogo e depois espalhado pelos quatro ventos.

Damiens, condenado 2 de março de 1757 a pedir perdão publicamente, antes de ser executado

O suplício, nesse sentido,  é considerado tudo aquilo que está relacionado ao castigo corporal, tortura, sofrimento moral ou aflição intensa provocada.  Mais, indo muito além, Foucault afirma que o suplício não deve ser equiparado ao extremo de uma raiva sem lei. O mesmo deve seguir determinadas regras de conduta que permita comparação e hierarquização, surgindo como uma forma ritualística. O sofrimento e o tempo que o supliciado tem de suportar varia conforme  a atrocidade do crime cometido. “O suplício, mesmo se tem como função purificar o crime, não reconcilia; traça em torno, ou melhor, sobre o próprio corpo do condenado sinais que não devem se apagar; a memória dos homens, em todo caso, guardará a lembrança da exposição, da roda, da tortura ou do sofrimento devidamente constatados” (FOUCAULT, 1987, p. 35).

Foucault analisa à luz de sua teoria inúmeros fatos encontrados em documentos que remontam ao  século XVIII. É através deles que o autor  demonstra como o poder de punir o corpo avança, chegando a uma nova maneira de punir, que carrega em si o caráter normativo da lei. A punição do corpo que ocorre através dos suplícios, dilui-se gradativamente. “O castigo passou de uma arte de provocar dores insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos” (FOUCAULT, 1987, p.16). Fez-se necessário rever o método de punição, pois os ideais humanistas prevaleciam sobre o novo sistema que emergia. O povo antes aterrorizado com os métodos de punição passou a se revoltar contra os meios coercitivos aplicados pelo poder do soberano, onde a compaixão leva ao sentimento de supressão do martírio infligido ao condenado. Além de um profundo desejo à reforma judiciária.

Com o tempo, o juiz não é mais, exclusivamente, o responsável pelo julgamento e por sua execução. Com a reformulação do novo sistema penal (há cerca de 150 a 200 anos), todo um corpo de técnicos e profissionais, aparados por um saber-poder propiciado pelas ciências se entrelaçaram através de inúmeras instancias, que tem como objetivo ir além do crime. O poder de punir recebe suas justificações e regras. As formas de aplicação da punição passam por uma grande transformação.

Michel Foucault - Vigiar e punir a história da violência nas prisões.

A partir de então, a punição deixa de ser aplicada somente ao corpo e se dirige mais diretamente a “alma”. O aparato do poder punitivo tem que se direcionar a essa nova realidade, à realidade incorpórea. Foucault define  como poder disciplinar uma rede de poderes que, sem se limitar, avançam sobre toda a  sociedade através de  técnicas determinadas como mecanismos de poder que permitem utilizar métodos que atuam sobre o comportamento do indivíduo. “Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes  impõe uma relação de docilidade- utilidade, são o que  podemos chamar as “disciplinas” (FOUCAULT, 1987, p. 126).

Em suma, este investimento político do corpo está relacionado a formas complexas e recíprocas de sua utilização econômica do poder, sendo em diversas proporções,  uma força de produção e um processo de dominação preso a um sistema de sujeição, onde a necessidade passa a ser um instrumento cuidadosamente calculado e organizado. O resultado disso são as práticas discursivas ao longo da história que, por sua vez, geram as matrizes normativas do pensamento.

No próximo artigo, eu procurarei analisar mais profundamente como funciona essa forma de poder disciplinar, que objetiva: normatizar, adestrar e tornar os indivíduos mais dóceis.

A caverna de Platão e o cinema

Na famosa passagem de Platão (República) conhecida como Mito da Caverna de Platão, o filósofo coloca sua visão da condição humana e principalmente do conhecimento em relação a realidade como um todo.

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A caverna de platão

Imagine, uma enorme caverna, ligada ao mundo exterior por uma passagem longa o bastante para impedir que qualquer luz do dia penetre na própria caverna. Olhando para a parede do fundo com as costas voltadas para a entrada está uma fila de prisioneiros. Não só os seus membros estão acorrentados como também têm seus pescoços presos, de uma maneira que não conseguem mover suas cabeças, e portanto não conseguem olhar um para o outro, e não podem ver nenhuma parte de si mesmos. Tudo que podem ver é a parede à sua frente. Têm estado nessa situação por toda existência.

Na caverna, atrás deles, há uma grande fogueira. Por causa da luz e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.

Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.

Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.

Libertado e conhecedor do mundo, o priosioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, e suas experiências seria incompreensível para aquelas pessoas cuja a linguagem só teria sombras e ecos como referências.

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Tudo que podem ver é a parede a sua frente. (Platão)

O modo de começar a ver essa alegoria é ver a nós, como aprisionados em nossos próprios corpos, tendo como companhia outros prisioneiros igual a nós., e todos nós, somos incapazes de discenir os seres reais um do outro, ou ao menos nosso próprio ser real. Nossa experiência direta não é a própria realidade, mas do que está em nossas mentes.

Essa alegoria foi retomada por muitos teóricos do cinema desde 1920. A caverna platônica é as vezes comparada com a camera escura, descrita como uma peça cuja a único abertura é um buraco mínusculo em uma das suas paredes.

Sobre a parede oposta desenha-se a reprodução exata, mas invertida daquilo que se poderia ver do lado de fora. A caverna de Platão também foi comparada com uma sala de cinema: os espectadores sendo os prisioneiros acorrentados e as imagens na tela, as sombras projetadas sobre os muros da gruta.

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Escuridão na sala de cinema

O Mito da Caverna também foi muito utilizado por filósofos como Karl Marx quando vai analisar a ideologia. É nessa tradição que diversos autores começaram  teorizar os “dispostivos” do cinema a partir da década de 70.

A sorridente Madame Beudet

Uma entediada dona de casa provinciana presa a um casamento burguês começa a fantasiar uma vida fora da sua monótona existência.

O início da Primeira Guerra Mundial modificou drasticamente o curso da história do cinema. Os Estados Unidos assume a posição definitiva (até os dias atuais) de maior fornecedor de filmes enquanto a Europa enfrenta uma grave crise cinematográfica.

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O filme fala sobre a solidão de Madame Beudet

É no desenrolar desse processo histórico que surge o estilo conhecido como impressionismo francês. A partir de então entre os inúmeros filmes surge a obra de Germaine Dulac: A sorridente Madame Beudet (La Souriante Madame Beudet – 1922).

Essa foi a obra impressionista de maior prestígio do cineasta, sendo um dos primeiros a abordar a questão da exploração do gênero feminino. A trama retrata a entediante vida de Beudet, uma dona de casa presa a um sufocante e melancólico casamento.

A sorridente Madame Beudet (La Souriante Madame Beudet

A Sorridente Madame Beudet é composto por seqüências de sonhos em que a dona de casa fantasia uma vida fora da sua melancólica existência. Os seus devaneios são a única coisa capaz de colocar um sorriso em seu rosto. Porém, para sua tristeza, o seu marido aparece constantemente para assombrar os seus sonhos. A solução que Madame Beudet encontra é assassinar o seu marido.

Dulac não só aborda a luta feminina contra a opressão machista como também utiliza os efeitos cinematográficos para dar uma visão subjetivista da personagem.

Enquanto os filmes expressionistas exploram o estado da alma relacionado principalmente com o cenário, o cinema impressionista caracteriza pela vontade de exprimir os sentimentos, através de um jogo de câmera móvel explorando ângulos trabalhados e subjetivados. O cinema deixa de ser mera fonte de entretenimento e passa a ser fonte de inspiração.

Dessa forma, Dulac faz o uso de uma variada gama de procedimentos como dissoluções, lentes distorcidas, duplas exposições e câmera lenta.

No mais, fica o convite para aqueles que querem aprofundar e admirar ainda mais a sétima arte, através dessa grande obra de tom intimista e experimental dos gloriosos tempos de cinéfila francesa.

França: 54 min,Mudo, P&B

Ano: 1922

Direção: Germaine Dulac

Roteiro: Denys Amiel, André Obey

Fotografia: Maurice Foster, Paul Parguel

Elenco: Alexandre Arquillière,Germaine Dermoz, Jean d`yd, Madeleine Guitty